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Questionarmo-nos permite avaliar as nossas escolhas, não o nosso valor

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THIERRY BERTRAND︵⌇A EDIÇÃO INTEGRAL
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Índice
1IntrospeçãoQuestionarmo-nos permite avaliar as nossas escolhas, não o nosso valor2IntrospeçãoO peso de algo também depende do tempo durante o qual o seguramos3IntrospeçãoJá nos amamos, mas nem sempre da forma certa4IntrospeçãoOs três ecrãs das nossas escolhas5IntrospeçãoO valor relacional dá-se, recebe-se e sustenta-se6ResponsabilidadeO que nos é feito e o que fazemos a seguir7ResponsabilidadeO problema começa onde nos abandonamos8ResponsabilidadeNão acrescentar a nossa própria destruição ao mal que sofremos9ResponsabilidadeFazer a nossa parte sem carregar toda a insatisfação da outra pessoa10ResponsabilidadeNão fazer o nosso corpo pagar pela falta da outra pessoa11ResponsabilidadeAmar o outro sem nos retirarmos da nossa própria vida12ResponsabilidadeA humildade diz toda a verdade sobre nós13ResponsabilidadeDeixar de suplicar sem eliminar os deveres14ResponsabilidadeA palavra «tóxico» não deve apagar a nossa parte15ResponsabilidadeNão supliquemos amor quando levamos luz16ResponsabilidadeUma ideia deve ser posta à prova antes de orientar a nossa vida17ResponsabilidadeUm princípio deve servir-nos, não prender-nos18ResponsabilidadeUma decisão constrói-se antes de ser assumida19Vida pessoalQuando a esperança do casal se apaga, a nossa vida não deve apagar-se com ela20Vida pessoalNão cheguemos vazios a pedir ao outro que nos preencha21Vida pessoalAmamos uma pessoa, mas também a vida que ela desperta em nós22Vida pessoalUma casa ardeu; não incendiemos as outras nove23Vida pessoalA gratidão volta a colocar toda a vida em perspetiva24Vida pessoalVoltar a convidar a alegria antes de a vontade regressar25Vida pessoalUm sorriso pode ser a primeira corda a que nos agarramos

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Capítulo 110 min de leitura · texto completo

Questionarmo-nos permite avaliar as nossas escolhas, não o nosso valor

Questionarmo-nos não é perguntarmo-nos todas as manhãs se ainda merecemos existir, ser amados ou confiar em nós próprios.

Também não é mergulharmos em nós próprios para enfrentarmos a nossa própria acusação e procurarmos mais uma razão para nos condenarmos.

É reconhecer algo mais simples:

Aquilo que sei pode não ser tudo o que é preciso saber.

Aquilo que vejo pode não ser tudo o que é preciso ver.

Aquilo que compreendo pode não ser tudo o que é preciso compreender.

Este reconhecimento não retira nada ao nosso valor. Apenas evita que confiemos o nosso futuro a uma compreensão incompleta.

Podemos ser inteligentes e, ainda assim, ter deixado escapar uma informação. Podemos ser generosos e oferecer algo de que a outra pessoa não precisava. Podemos ser fiéis e negligenciar outra promessa importante. Podemos ter boas intenções e produzir o contrário daquilo que queríamos.

Questionarmo-nos não serve para decidir se somos boas ou más pessoas. Serve para verificar se os nossos atos estão à altura da pessoa que acreditamos ser e da relação que queremos construir.

Verificar não é desvalorizar

Quando relemos uma mensagem antes de a enviar, não estamos a declarar que não sabemos escrever.

Quando voltamos a contar uma quantia importante, não estamos a dizer que o dinheiro não tem valor.

Quando verificamos se uma porta está bem fechada, não estamos a condenar a casa inteira.

Verificamos um ponto concreto porque aquilo que dele depende merece a nossa atenção. Porque é que o mesmo processo se torna tão doloroso quando diz respeito ao nosso comportamento?

Porque generalizamos.

A pessoa que está connosco diz-nos que uma das nossas palavras foi desdenhosa. Ouvimos que somos desprezíveis. Essa pessoa censura-nos por uma decisão egoísta. Ouvimos que todo o nosso ser é egoísta. Descobrimos um erro na nossa forma de amar e concluímos que não sabemos oferecer nada de bom.

Um comportamento precisa de ser examinado. Não é toda a nossa identidade que tem de comparecer.

Temos de aprender a isolar o que está em causa:

«Neste ponto, o que fiz?»

«O que é que isso produziu?»

«O que devo conservar, corrigir ou explicar melhor?»

Estas perguntas são exigentes. Não são humilhantes.

Um defeito não devora todas as nossas qualidades. Uma má decisão não anula todas as nossas escolhas úteis. Uma reação desajeitada não apaga as ocasiões em que soubemos ouvir, apoiar, proteger ou amar de forma adequada.

Podemos reconhecer uma falta sem transformar toda a nossa pessoa numa falta.

Os nossos pontos fortes tornam a análise mais justa

Uma pessoa que desconhece o seu valor pode usar a introspeção para se destruir. Procura um defeito e encontra dez. Recebe cada censura como uma verdade superior e assume responsabilidades que não lhe pertencem.

Pelo contrário, uma pessoa que olha apenas para os seus pontos fortes transforma qualquer observação num ataque. Recorda aquilo que paga, aquilo que oferece e aquilo que suporta. O seu inventário torna-se um muro atrás do qual já nada pode ser corrigido.

Precisamos das duas verdades:

Preciso de saber aquilo que ofereço.

Tenho de continuar a ser capaz de analisar aquilo que posso melhorar.

Identifiquemos, então, as qualidades que os factos confirmam. Sabemos ouvir sem usar mais tarde uma confidência contra a outra pessoa? A nossa presença traz habitualmente paz, afeto, segurança ou prazer? Cumprimos a nossa palavra nos domínios em que nos consideramos fiáveis? As pessoas que vivem connosco conseguem indicar momentos concretos em que as nossas qualidades lhes fizeram bem?

Uma qualidade confirmada pelos factos merece ser reconhecida. Não desaparece só porque outra área exige trabalho.

Esta base ajuda-nos a ouvir uma observação sem desmoronarmos: «Estas palavras não resumem tudo aquilo que sou. Posso, por isso, analisá-las sem ter de defender toda a minha identidade.»

Reconhecer o nosso valor pessoal não torna desnecessário questionarmo-nos. Torna esse exame mais preciso.

Há três respostas possíveis

Por vezes, iniciamos a introspeção com uma conclusão já escrita: se me questionar, vou inevitavelmente descobrir que estou errado.

Isso não é uma verificação. É uma condenação preparada de antemão.

Um questionamento honesto pode conduzir a pelo menos três respostas.

A primeira: tenho de corrigir. Os factos mostram que as minhas palavras magoaram, que a minha decisão ignorou uma expectativa legítima ou que aplico à outra pessoa uma regra que recuso para mim próprio.

A segunda: posso melhorar. A minha intenção era boa, mas outra forma, outra medida ou outro momento poderiam gerar mais valor. Não preciso de rejeitar essa qualidade; tenho de aprender a usá-la melhor.

A terceira: fiz corretamente a minha parte. A pessoa que está connosco pode ter compreendido mal, recusado um limite ou reagido a partir de uma expectativa que nunca aceitámos. Podemos explicar melhor sem assumir uma culpa apenas porque a outra pessoa sente frustração.

Esta terceira possibilidade é essencial. Questionarmo-nos não significa dar razão à pessoa que está connosco. Significa examinar a situação com a devida consideração pela outra pessoa e, depois, aceitar com o devido respeito por nós próprios aquilo que os factos confirmam.

A tristeza da outra pessoa não prova automaticamente que agimos mal. A nossa boa intenção também não prova que agimos bem.

É preciso examinar o conjunto dos factos.

Rever a cena revela aquilo que a emoção escondera

Depois de uma cena difícil, podemos revê-la como se assistíssemos a uma repetição. Não para nos torturarmos, mas para observarmos aquilo que a rapidez da ação não nos permitiu ver.

Qual foi o facto inicial? O que supus de imediato? Que intenção atribuí à outra pessoa? O que queria obter? Que tom usei? Em que momento mudou a direção da conversa? O que produziu a minha reação?

Uma mulher censura a pessoa com quem vive por nunca tomar a iniciativa. No fim de semana seguinte, ele propõe uma saída. Ela critica imediatamente o local, a hora e o orçamento e repete que tem sempre de organizar tudo.

Ao rever a cena, ela pode reconhecer duas verdades: a sua necessidade de participação era legítima, mas a forma como acolheu a iniciativa talvez tenha ensinado à pessoa que está com ela que não valia a pena fazer propostas.

Um homem considera que a pessoa com quem vive lhe fala com dureza. Durante uma discussão, mantém um tom calmo. Ainda assim, ela exalta-se e censura-o pela falta de apoio. Ao rever a cena, ele pode confirmar que não acrescentou agressividade. Também pode perceber que manteve a calma na forma, mas esteve ausente na escuta.

Em ambos os casos, não basta perguntar quem tinha razão. É preciso observar aquilo que cada comportamento contribuiu para produzir.

Rever a cena não muda o passado. Transforma aquilo que o passado poderá ensinar à nossa próxima resposta.

A antevisão consulta as consequências

O questionamento não atua apenas depois da ação. Também pode intervir antes.

Criamos então uma antevisão da decisão que estamos prestes a tomar. Projetamo-nos algumas horas, alguns dias ou alguns anos no futuro e observamos as consequências prováveis.

Estamos prestes a enviar uma mensagem sob o efeito da ira. Continuaremos orgulhosos de cada palavra quando a emoção acalmar? Esta resposta ajudará a tratar o problema ou dará à outra pessoa uma nova falta atrás da qual poderá esconder a sua?

Queremos humilhar a pessoa que está connosco diante da família dela, depois de nós próprios termos sido humilhados. Que casal regressará a casa depois desta dupla ferida? Que lugar teremos dado aos familiares num problema que talvez não esqueçam depois da nossa reconciliação?

Queremos aceitar um projeto dispendioso para agradar à outra pessoa. Que alegria imediata iremos criar? Que custo, cansaço ou ressentimento poderão surgir depois? Saberá a outra pessoa realmente aquilo que teremos de sacrificar?

Esta antevisão não é uma profecia. Apenas nos impede de fingir que as consequências não existiam por não estarem garantidas.

Uma decisão consciente olha para além do seu primeiro benefício. Também tem em conta a pessoa que terá de viver com as consequências.

Essa pessoa continuamos a ser nós.

Uma boa intenção deve ter em conta a experiência da outra pessoa

Podemos considerar-nos românticos, protetores, disponíveis, francos ou atenciosos. Talvez tenhamos razão.

Mas, numa relação, uma qualidade não vive apenas na nossa intenção. Chega à experiência de uma pessoa concreta.

Um presente pode ser generoso e, ainda assim, não corresponder àquilo que realmente teria tocado a outra pessoa. A franqueza pode ser uma qualidade e tornar-se brutal quando é usada no momento errado ou diante de pessoas que não deveriam receber essa verdade. A proteção pode tranquilizar e depois tornar-se sufocante se retirar continuamente à outra pessoa o direito de tentar e decidir.

O questionamento pessoal não diz: «Não és generoso. Não sabes proteger.»

Pergunta: «Como é recebida esta qualidade aqui? O que seria preciso adaptar para que gerasse melhor o bem que querias oferecer?»

O contexto também conta. Uma brincadeira pode fazer rir num sábado à noite e magoar na terça-feira seguinte. A frase pode ser idêntica; o momento, a história recente e o estado da relação não são.

Não agimos necessariamente mal só porque a outra pessoa recebeu mal o gesto. A pessoa que está connosco também pode atribuir-nos más intenções. Mas repetir que o gesto era exatamente o mesmo evita a pergunta útil: o que era diferente à sua volta?

Um amor padronizado permite-nos continuar a ser nós próprios sem aprendermos a conhecer a outra pessoa. Um amor responsável preserva a nossa intenção e melhora a forma de a traduzir.

O questionamento pessoal prepara o questionamento da relação

Gostamos de pedir à pessoa que está connosco que se questione. Muitas vezes sabemos aquilo que ela deve reconhecer, corrigir, deixar de fazer ou compreender.

Depois, essa pessoa faz um esforço. Aprende a ouvir, torna-se mais presente, cumpre melhor a sua palavra ou reduz um comportamento que estava a destruir a relação.

E nem todos os problemas desaparecem.

Enquanto a outra pessoa avançava, por vezes ficámos no lugar de onde lhe dávamos instruções. Quem antes cometia a falta dispõe agora de factos novos com os quais pode comparar a história anterior. Estas referências recentes ajudam essa pessoa a ver os nossos hábitos com maior clareza.

Acaba por perguntar: «Trabalhei naquilo que me censuravas. Agora, o que fazes com aquilo que te peço?»

A nossa receita torna-se menos agradável quando traz o nosso nome.

O trabalho comum deve começar por uma reunião interior. Qual é a minha parte? O que sei que fiz bem? O que censuro enquanto faço o mesmo de outra forma? Que esforço visível fiz pessoalmente? Que observação rejeitei porque ameaçava a imagem que tinha de mim?

Depois disso, a conversa pode tornar-se a partilha de duas compreensões, e não um tribunal organizado por uma só pessoa.

Melhorar nem sempre significa dar mais

Mais amor, paciência, atenção, disponibilidade ou esforço: por vezes, é exatamente disso que precisamos.

Mas, se já damos imenso a uma pessoa que nada protege, aumentar a quantidade pode ensinar-lhe que receberá ainda mais sem ter de mudar.

Se perdoarmos sem tornar visíveis as consequências, mais paciência pode transformar-se em mais tempo oferecido ao mesmo comportamento.

Se continuarmos a explicar a alguém que compreendeu, mas se recusa a agir, mais comunicação pode apenas adiar a nossa decisão.

O questionamento deve, por isso, examinar tanto a solução como o problema. Precisa esta relação de mais amor ou de um amor mais bem adaptado? De uma nova demonstração de atenção ou de um limite que torne visíveis aquelas que já foram dadas? Devemos corrigir um defeito ou deixar de carregar a parte que a outra pessoa abandona deliberadamente?

Dar melhor é, por vezes, mais responsável do que dar mais.

E, quando a outra pessoa se recusa de forma persistente a construir, questionarmo-nos não consiste em inventar uma nova maneira de fazermos tudo. Também pode confirmar que o nosso poder termina diante da vontade dela.

Verificar para usarmos melhor o nosso potencial

Questionarmo-nos não é ficarmos obcecados com os nossos defeitos. É colocarmos a nossa lucidez ao serviço do nosso potencial.

Esse questionamento transforma uma censura em informação, uma experiência em aprendizagem e uma qualidade num valor mais bem adaptado. Ajuda-nos a reconhecer uma falta sem nos reduzir a ela. Também nos permite confirmar uma decisão útil sem desprezar quem não concorda.

Não devemos condenar-nos nem declarar-nos perfeitos.

Devemos verificar.

Conservar aquilo que os factos mostram ser útil.

Melhorar aquilo que pode gerar mais valor.

Corrigir aquilo que destrói.

Explicar aquilo que foi mal compreendido.

E recusarmo-nos a carregar uma falta que pertence realmente à outra pessoa.

O nosso valor não aumenta sempre que temos razão, nem diminui sempre que descobrimos um erro. Torna-se visível na forma como usamos a verdade descoberta.

Questionarmo-nos não nos retira, portanto, nada. Apenas impede que as nossas certezas, os nossos hábitos e até as nossas qualidades produzam menos do que somos capazes de oferecer.

Para aprofundar

Perguntas que examinam as minhas escolhas sem condenar o meu valor

  1. Que qualidades minhas já estão confirmadas pelos factos?
  2. Como posso separar os factos, as minhas suposições e os efeitos dos meus próprios atos?
  3. Devo corrigir, melhorar ou confirmar a minha escolha?
  4. Aplico aos meus próprios hábitos a exigência que imponho à outra pessoa?
  5. Devo dar mais, dar de outra forma, estabelecer um limite ou aceitar aquilo que não controlo?

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