Deixar de suplicar sem eliminar os deveres
«Diz-me que me amas.»
A frase pode ser um convite terno, um pedido legítimo depois de um afastamento ou a necessidade pontual de sermos tranquilizados.
Também pode ser a centésima tentativa de obter uma atenção que a outra pessoa retém há muito tempo.
Nesse caso, a pessoa já não pede apenas palavras. Procura um olhar, um gesto, desejo ou a prova de que ainda importa. Explica, recorda tudo aquilo que dá, chora, zanga-se, ameaça partir e depois volta a pedir a mesma coisa de outra forma.
Acaba por se rebaixar para receber aquilo que deveria circular numa relação escolhida por duas pessoas.
O problema não é precisarmos de amor nem exprimirmos essa necessidade. Um casal em que ninguém pode pedir condena cada pessoa a adivinhar.
O problema começa quando o pedido perde todos os limites, todas as consequências e toda a dignidade. Já não tentamos tornar compreensível a nossa expectativa. Procuramos convencer a outra pessoa a conceder-nos, como um favor, aquilo que tinha aceitado ajudar a construir.
Não podemos ordenar um sentimento. Mas podemos recordar um compromisso, nomear uma condição da relação e recusar que a nossa estabilidade dependa do próximo gesto de uma pessoa que aprendeu a retê-lo.
Deixar de suplicar não elimina os deveres do casal. Deixa de os mendigar.
Escolher a relação é aceitar uma responsabilidade
Quando iniciamos uma relação de casal, não procuramos apenas benefícios. Aceitamos uma responsabilidade perante a experiência da outra pessoa.
Essa responsabilidade não tem a mesma forma em todo o lado. Depende daquilo que as duas pessoas compreenderam, prometeram e tornaram importante. Mas algumas exigências humanas permanecem: não humilhar, não explorar, proteger a dignidade e não usar a vulnerabilidade da outra pessoa contra ela.
A visão comum esclarece depois aquilo que ambas querem construir: um entendimento comum sobre a fidelidade, ajuda mútua, presença junto das famílias, uma organização ou uma forma de educar os filhos.
Por fim, os compromissos tornam essas expectativas suficientemente claras para que uma falha possa ser identificada.
Sem entendimento, arriscamo-nos a censurar a outra pessoa por não respeitar um contrato que nunca compreendeu. Com entendimento, podemos recordar uma palavra dada sem transformar uma preferência pessoal numa lei universal.
Quem escolhe os benefícios da relação deve reconhecer as responsabilidades que os tornam possíveis.
Pedir, recordar, exigir e suplicar
Um pedido torna visível uma necessidade:
«Gostaria que estivesses mais presente quando falo contigo.»
Um lembrete liga essa necessidade a um entendimento:
«Tínhamos decidido deixar os telemóveis de lado durante este momento para nos reencontrarmos.»
Uma exigência identifica uma condição necessária para continuar a construção:
«Já não quero que os nossos desacordos se transformem em humilhações. Se continuarmos juntos, esta forma de falar tem de mudar.»
Uma súplica repete o pedido sem proteger a condição anunciada. A pessoa volta a explicar, negoceia o seu próprio valor e entrega a sua paz à escolha seguinte da outra pessoa.
A exigência não é uma ordem mágica. Não cria amor nem vontade. Diz apenas: eis aquilo de que esta relação precisa, eis a parte que assumo e eis aquilo que terei de decidir se nada mudar.
Pedir não é rebaixarmo-nos. Recordar não é ordenar. A dignidade desaparece quando as nossas palavras deixam de servir para esclarecer e passam a servir para obter, a qualquer preço, um valor que a outra pessoa pode reter sem consequências.
A súplica pode tornar vantajoso o afastamento
Por vezes, uma pessoa descobre que um pouco de distância lhe dá muito poder. Responde menos, retira os elogios ou torna-se fria depois de cada desacordo. A pessoa que está com ela redobra então os esforços: mais mensagens, presentes, concessões ou disponibilidade.
O afastamento torna-se rentável.
Não é necessário que esta estratégia seja consciente. Basta que a relação aprenda que reter um valor produz mais serviços e submissão.
Quanto mais suplicamos, mais revelamos o preço que estamos dispostos a pagar por alguns sinais de reabertura. Se nenhum limite se seguir, o casal pode aprender que uma pessoa dá livremente e a outra só dá para acalmar uma crise ou impedir uma partida.
Aquilo que deveria circular torna-se uma moeda rara.
Não saímos deste mecanismo tornando-nos mais convincentes. Saímos quando deixamos de tornar vantajosa a privação, damos nome ao que acontece e decidimos aquilo que faremos se esta forma de amar se tornar a regra.
Dar nome àquilo que realmente procuramos
«Quero o seu amor» parece um pedido completo.
Mas o que queremos sentir graças a esse amor? Sentir que somos importantes, desejados, seguros, reconhecidos, apoiados ou orgulhosos de termos sido escolhidos?
Talvez esperemos um elogio, um abraço, presença, intimidade ou um gesto que mostre que a outra pessoa pensou em nós.
Dar nome à experiência procurada torna o pedido mais claro. Uma pessoa pode amar-nos sinceramente e ignorar que vivemos o seu silêncio como indiferença. Pode assegurar muitas tarefas sem compreender que esperamos sobretudo uma palavra de reconhecimento.
Ser preciso não garante a resposta. Permite distinguir a incompreensão da recusa.
Também podemos descobrir que confiámos a um único gesto uma função imensa: um elogio deveria reparar toda a nossa autoestima, um abraço apagar semanas de distância, uma noite provar todo o futuro.
A forma singular do amor da pessoa que está connosco não pode ser substituída. Mas alguns valores concentrados nela podem ser alimentados noutros lugares: uma amizade oferece escuta, uma atividade devolve orgulho, alguém próximo presta ajuda concreta e um projeto pessoal devolve uma sensação de progresso.
Estas fontes não dispensam a outra pessoa da sua parte. Apenas impedem que a sua recusa feche todas as portas ao mesmo tempo.
Por vezes, exigimos à outra pessoa aquilo que recusamos a nós próprios
Pedimos atenção, mas nunca nos concedemos um momento que não sirva alguém. Queremos ser valorizados, mas falamos connosco com desprezo. Exigimos descanso, mas preenchemos cada espaço livre com uma nova obrigação.
Podemos até dar imenso na esperança de que essa dádiva ensine finalmente a outra pessoa a oferecer-nos aquilo que não ousamos dar a nós próprios.
Imaginemos uma parte dessa energia redirecionada: o tempo passado a vigiar uma resposta, as longas explicações, as concessões adicionais e a atenção dedicada a cada silêncio.
O que aconteceria à nossa vida se essa energia servisse também o nosso corpo, os nossos projetos, os nossos laços e as coisas que nos deixam orgulhosos?
Darmos amor a nós próprios não apaga a tristeza de não recebermos aquele que esperávamos. Evita que à privação se acrescente o nosso próprio abandono.
O amor-próprio não diz: «Pouco importa que me ames ou não.»
Diz: «O teu amor importa, mas não possui toda a minha vida. O teu respeito pertence à relação, mas o teu desprezo não decidirá a minha dignidade.»
A autonomia não elimina os deveres. Impede-nos de os exigir a partir de uma dependência que tornaria impossível qualquer consequência.
A nossa exigência começa pela análise da nossa parte
Dizer «tens de me amar» não basta.
Que experiência dá a nossa presença à outra pessoa? Escutamos as suas necessidades com a atenção que reclamamos para as nossas? Respeitamos os seus laços? Participamos nos projetos comuns? Somos benevolentes apenas quando tudo nos convém?
Um direito na relação não exige que nos tornemos perfeitos antes de pedirmos seja o que for. Exige que aceitemos o princípio nos dois sentidos.
Se reclamo atenção, devo analisar aquela que dou. Se peço lealdade, devo olhar para a minha. A reciprocidade não impõe os mesmos gestos nem as mesmas quantidades, mas um valor real deve circular nas duas direções.
Quando a nossa parte é visível, o lembrete já não é: «Dá-me porque não consigo viver sem ti.» Torna-se: «Contribuo para esta relação e não posso construir sozinho aquilo que exige duas vontades.»
A pessoa que está connosco também tem interesse em proteger o casal. Recebe presença, afeto, organização, intimidade e projetos. Não é apenas a pessoa que seria preciso convencer a ficar; beneficia daquilo que existe.
Aquilo que toleramos torna-se, por vezes, a forma do casal
Se cada falta de respeito terminar em pedidos de desculpa sem mudança, a regra prática torna-se: pode voltar a fazer-se depois de pedir desculpa.
Se uma pessoa recusar toda a atenção e a outra compensar com ainda mais esforços, a regra torna-se: quem sofre também carregará a reparação.
Se um pedido for repetido durante anos sem um novo método nem uma decisão, o casal aprende que pode ignorá-lo.
Não escolhemos estas regras. Contudo, deixámo-las consolidar-se pela repetição.
É por isso que recordar um dever tem de conduzir a algum lugar. Ou a outra pessoa compreende e começa uma mudança observável. Ou o pedido tem de ser clarificado. Ou um desacordo real tem de ser negociado. Ou a outra pessoa recusa duradouramente contribuir, e temos de decidir o que essa recusa muda no nosso compromisso.
Retirar alguns esforços não deve tornar-se uma vingança. Podemos interromper aquilo que esgota a nossa energia ou mantém uma organização injusta. Não devemos negar dignidade ou segurança, nem deixar de cumprir os nossos compromissos essenciais, para provocar dor.
A firmeza responsável não procura fazer pagar. Deixa de financiar aquilo que destrói.
Uma exigência torna-se real quando aceitamos aquilo que se segue
Dizer «já não quero viver isto» não basta se soubermos que nada mudará na repetição seguinte.
A exigência requer uma preparação interior:
O que farei se a outra pessoa recusar? Que investimento vou rever? Que projeto já não pode avançar sem cooperação? Que decisão terei de assumir se um valor essencial continuar ausente?
A resposta não é universal. Podemos ficar e mudar de método. Proteger mais o nosso tempo. Suspender um projeto. Constatar que as condições necessárias para continuar já não estão reunidas.
Um limite sem qualquer consequência possível torna-se um desejo.
O dever ajuda-nos a avaliar a coerência da relação. Não nos dá o poder de fabricar a vontade da pessoa que está connosco.
Deixar de suplicar é devolver a cada pessoa a sua parte. Pedimos com clareza, ligamos a expectativa ao entendimento, analisamos o nosso contributo e observamos aquilo que a outra pessoa escolhe fazer. Depois, levamos por diante a decisão que depende de nós.
Não é renunciar a sermos amados.
É recusar que o desejo de receber amor nos obrigue a abandonar o desejo de o dar a nós próprios.
Para aprofundar
As perguntas que tornam digno o meu pedido
- Que experiência concreta estou a reclamar sob a palavra amor?
- Estou a pedir, a recordar, a exigir ou a suplicar?
- Que parte deste compromisso cumpro eu próprio?
- Que vantagem involuntária cria a minha súplica para a outra pessoa?
- Que seguimento estou realmente disposto a dar ao meu limite?
