Capítulo 15 : Não supliquemos amor quando levamos luz | Save Mon Couple
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Não supliquemos amor quando levamos luz

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THIERRY BERTRAND︵⌇A EDIÇÃO INTEGRAL
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Índice
1IntrospeçãoQuestionarmo-nos permite avaliar as nossas escolhas, não o nosso valor2IntrospeçãoO peso de algo também depende do tempo durante o qual o seguramos3IntrospeçãoJá nos amamos, mas nem sempre da forma certa4IntrospeçãoOs três ecrãs das nossas escolhas5IntrospeçãoO valor relacional dá-se, recebe-se e sustenta-se6ResponsabilidadeO que nos é feito e o que fazemos a seguir7ResponsabilidadeO problema começa onde nos abandonamos8ResponsabilidadeNão acrescentar a nossa própria destruição ao mal que sofremos9ResponsabilidadeFazer a nossa parte sem carregar toda a insatisfação da outra pessoa10ResponsabilidadeNão fazer o nosso corpo pagar pela falta da outra pessoa11ResponsabilidadeAmar o outro sem nos retirarmos da nossa própria vida12ResponsabilidadeA humildade diz toda a verdade sobre nós13ResponsabilidadeDeixar de suplicar sem eliminar os deveres14ResponsabilidadeA palavra «tóxico» não deve apagar a nossa parte15ResponsabilidadeNão supliquemos amor quando levamos luz16ResponsabilidadeUma ideia deve ser posta à prova antes de orientar a nossa vida17ResponsabilidadeUm princípio deve servir-nos, não prender-nos18ResponsabilidadeUma decisão constrói-se antes de ser assumida19Vida pessoalQuando a esperança do casal se apaga, a nossa vida não deve apagar-se com ela20Vida pessoalNão cheguemos vazios a pedir ao outro que nos preencha21Vida pessoalAmamos uma pessoa, mas também a vida que ela desperta em nós22Vida pessoalUma casa ardeu; não incendiemos as outras nove23Vida pessoalA gratidão volta a colocar toda a vida em perspetiva24Vida pessoalVoltar a convidar a alegria antes de a vontade regressar25Vida pessoalUm sorriso pode ser a primeira corda a que nos agarramos

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Capítulo 1510 min de leitura · texto completo

Não supliquemos amor quando levamos luz

Há uma cena estranha em muitas relações: a pessoa que dá mais amor acaba, por vezes, a suplicar para receber um pouco.

Oferece atenção, paz, organização, ternura e soluções. A sua presença facilita a vida. Ajuda a pessoa que está consigo a sentir-se apoiada, importante e menos só.

Depois, essa mesma pessoa quase pede autorização para existir no casal.

Suplica por um olhar, uma prioridade, uma palavra doce, intimidade ou um mínimo de respeito. Negoceia aquilo que todos os dias torna possível para a outra pessoa. Comporta-se como se fosse a pessoa menos valiosa da relação.

Como podemos ser uma luz na vida de alguém e suplicar a essa pessoa que olhe para nós?

Como podemos depositar um lingote de ouro numa casa e quase agradecer a quem aceita guardá-lo?

A resposta nem sempre é que a pessoa que está connosco nos colocou abaixo dela. Por vezes, fomos nós próprios que abandonámos o lugar correspondente àquilo que oferecemos. Demos e depois entregámos a quem recebia o poder de decidir se essa dádiva provava finalmente que merecíamos ser amados.

O problema não é, portanto, apenas o amor que falta.

É a pessoa de valor que já não sabe reconhecer, verificar e proteger o valor que cria.

A nossa presença não fabrica a felicidade, mas pode convidá-la

Ninguém fabrica inteiramente a felicidade interior de outra pessoa. Não controlamos as suas feridas, a sua capacidade de receber nem o sentido que dará aos nossos gestos.

Isso não significa que a nossa presença nada produza.

Uma refeição preparada com atenção não ordena a alegria, mas pode convidá-la. Uma palavra dada no momento certo não fabrica a confiança, mas pode oferecer-lhe um apoio. Uma fidelidade constante cria referências graças às quais o espírito da outra pessoa pode descansar.

Quando ajudamos alguém a respirar, a reerguer-se, a organizar a vida, a atravessar uma dificuldade ou a voltar a acreditar em si, oferecemos alguma coisa. Esse contributo não é tudo. Não cria qualquer direito de propriedade sobre a outra pessoa. Mas tem valor.

O amor-próprio começa quando sabemos reconhecê-lo sem o exagerar nem o apagar.

A fonte pode tornar-se dependente do olhar que recebe a sua luz

Dar nem sempre é apenas uma expressão de amor. Pode tornar-se a nossa forma de procurar uma prova de valor.

Prestamos serviços, antecipamos, reparamos e suportamos. Depois, esperamos que o olhar da pessoa que está connosco diga finalmente: «Tu importas. Não quero perder-te.»

Quando esse reconhecimento não chega, por vezes aumentamos o investimento. Damos mais para obter a prova de que aquilo que já dávamos não era inútil.

A pessoa que recebe torna-se então juíza do valor produzido. Quanto mais fria permanece, mais procuramos convencê-la. A fonte pede ao beneficiário autorização para acreditar que ilumina.

Eis a inversão.

O nosso valor na relação verifica-se na realidade daquilo que oferecemos, não apenas na gratidão da pessoa que o recebe.

Mas temos de aceitar a hipótese inversa: talvez ofereçamos aquilo que gostamos de dar em vez daquilo de que a outra pessoa precisa. Talvez chamemos luz a uma presença vivida como vigilância, conselho àquilo que se torna controlo ou sacrifício àquilo que impõe uma dívida nunca pedida.

O nosso valor deve, portanto, ser medido pelos seus efeitos reais, não apenas pela nossa intenção.

Um lingote de ouro não nos torna donos do cofre

Se levamos algo raro e precioso à vida de uma pessoa, não devemos apresentar essa dádiva como uma pedra sem valor.

Contudo, o lingote não nos torna donos do cofre.

A nossa lealdade não nos dá o direito de controlar a outra pessoa. O nosso apoio financeiro não nos permite decidir cada pensamento. A nossa presença junto dos filhos não transforma a outra pessoa numa devedora eterna.

O valor na relação não é a dignidade humana.

Duas pessoas têm a mesma dignidade, mesmo que não ofereçam o mesmo num dado período. Um contributo maior deve ser visto. Não permite humilhar.

Dizer «a minha presença oferece muito» não é dizer «tu vales menos do que eu».

A primeira frase dá nome a um contributo. A segunda rebaixa uma pessoa.

Precisamos desta distinção para evitar dois erros: apagarmo-nos em nome da humildade ou dominarmos em nome do nosso valor.

Uma luz saudável ilumina. Não queima os olhos da outra pessoa para provar que existe.

A humildade não nega o que é evidente

Por vezes, sentimo-nos constrangidos ao reconhecer que a nossa presença melhora a vida de alguém. Dizemos: «Limito-me a cumprir o meu dever. Qualquer pessoa poderia fazer o mesmo.»

Mas não foi qualquer pessoa que o fez.

Não foi qualquer pessoa que esteve presente durante esses anos. Não foi qualquer pessoa que desenvolveu essa paciência, aprendeu essa organização ou ofereceu esse tempo. Outras pessoas poderiam oferecer um valor diferente, talvez mais adequado. Isso não torna imaginária a nossa contribuição.

A humildade recusa dizer: «Sem mim, não és nada.»

Também recusa dizer: «Não te ofereço nada», quando uma parte da estabilidade, dos projetos ou da alegria quotidiana assenta visivelmente na nossa presença.

Podemos reconhecer aquilo que oferecemos e aquilo que a outra pessoa oferece sem diminuir ninguém.

Esse reconhecimento muda a nossa forma de decidir. Uma pessoa consciente do seu valor pode ouvir uma crítica sem desabar. Pode corrigir um defeito sem perder todo o seu lugar. Também pode encontrar o desprezo sem redobrar os sacrifícios para convencer.

A dádiva não deve tornar-se um serviço ilimitado

Imaginemos que oferecemos regularmente a alguém um pão bem recheado. No início, a pessoa recebe-o com gratidão. Depois, habitua-se. Exige uma bebida, impõe a hora exata e zanga-se se não sorrirmos o suficiente ao entregá-lo.

A imagem mostra aquilo que acontece quando a dádiva se torna um direito ilimitado e o beneficiário acaba por dar ordens à pessoa generosa.

No casal, esta inversão acontece lentamente. Quanto mais uma pessoa dá, mais a outra pode transformar o seu contributo num mínimo obrigatório. Cada esquecimento parece então provar que ela nada faz.

A pessoa que dá acaba por ter medo de que o seu amor seja recusado. Mas o que teme exatamente? Que alguém recuse aquilo de que já beneficia? Ou perder o papel que lhe permite sentir-se indispensável?

Ser útil não é a nossa única razão de existir.

Uma pessoa pode tornar-se indispensável por ter centralizado tudo, corrigido cada erro e impedido a outra de aprender. Se o nosso valor depender da incapacidade dela, não construímos uma relação forte.

Um valor maduro apoia e também ajuda a outra pessoa a manter-se de pé. Não teme que o desenvolvimento dela diminua a nossa importância.

O nosso valor mais profundo não consiste em tornar a outra pessoa incapaz de viver sem nós. Consiste em tornar a vida construída em conjunto suficientemente bela e verdadeira para que ela queira livremente protegê-la connosco.

Dar nome à falta sem defender o nosso valor

Não devemos ficar em silêncio e concluir: «Se esta pessoa me amasse, adivinharia tudo.» O amor adulto precisa de palavras claras.

Podemos dizer o que falta e pedir uma mudança concreta. Uma vez compreendida a necessidade, a questão já não é convencer melhor, mas observar a resposta: escuta, iniciativa, tentativa e progresso, ou uma promessa que serve apenas para interromper a crise.

Dar nome à falta protege a relação. Defender interminavelmente o nosso valor volta a colocar-nos sob o julgamento da pessoa que já beneficia daquilo que oferecemos.

Antes de sermos exigentes, verifiquemos a nossa luz

O valor torna-se perigoso quando é apenas uma história lisonjeira que contamos sobre nós próprios.

Podemos dizer: «Faço tudo», quando fazemos sobretudo aquilo que nos convém. Podemos trazer dinheiro e recusar qualquer presença emocional. Oferecer muito afeto e faltar ao respeito. Resolver todos os problemas práticos e, ao mesmo tempo, retirar a liberdade à outra pessoa.

Uma qualidade importante não paga todas as dívidas da relação.

Antes de exigirmos que a outra pessoa proteja a nossa presença, verifiquemos a nossa parte:

Fazemos realmente aquilo que aceitámos fazer?

Trabalhamos os defeitos que ferem a relação?

Aquilo que oferecemos responde a necessidades que a outra pessoa reconhece?

A pessoa que está connosco também encontra espaço, alegria e valor na vida construída connosco?

Se as respostas incomodarem, não nos escondamos atrás do lingote de ouro. Corrijamos aquilo que tiver de ser corrigido.

Mas, quando o nosso contributo é real, as nossas correções são visíveis e a outra pessoa continua a beneficiar da nossa presença enquanto recusa o mínimo necessário à nossa felicidade, deixemos de defender o nosso valor perante quem o consome.

A pessoa que está connosco também deve proteger aquilo que recebe

Dizer que a pessoa que está connosco deve esforçar-se para nos manter na sua vida não é necessariamente arrogante. Todas as relações duradouras contêm esta realidade nos dois sentidos.

A nossa presença não está definitivamente garantida. O compromisso oferece segurança; não elimina a responsabilidade de continuarmos a ser uma pessoa com quem a outra ainda pode construir.

Proteger a relação é corrigir aquilo que impede a paz da outra pessoa, continuar a dar-lhe um lugar e compreender que as suas qualidades não são recursos naturais disponíveis sem limites.

O desequilíbrio surge quando a pessoa que mais recebe fixa todas as condições. A outra torna-se útil, mas pouco considerada; solicitada para reparar, mas ignorada quando exprime uma necessidade.

É então preciso olhar para a contradição:

«A minha presença é suficientemente importante para continuares a recebê-la, mas as minhas necessidades não são suficientemente importantes para as levares a sério.»

Uma relação não pode pedir a nossa luz e, ao mesmo tempo, recusar-se duradouramente a reconhecer a pessoa que é a sua fonte.

O nosso poder encontra-se naquilo em que participamos

Por vezes, a pessoa que dá menos parece a mais poderosa. Concede ou retira a sua atenção. Como desejamos a sua abertura, imaginamos que detém todo o poder.

Mas talvez nos tenhamos esquecido do nosso.

A alavanca saudável não consiste em tornar a outra pessoa dependente. É a nossa capacidade de escolher aquilo em que continuamos a participar. Não controlamos o seu coração. Podemos governar melhor a nossa disponibilidade adicional, certos sacrifícios e os novos projetos que pressupõem reciprocidade.

O poder mais íntegro na relação não é: «Vou tornar-te incapaz de viver sem mim.»

É: «Sou capaz de deixar de me trair para permanecer junto de ti.»

Reduzir um investimento livre não significa abandonar os filhos, reter aquilo que pertence à outra pessoa, criar insegurança ou organizar sofrimento para obter obediência.

Trata-se de interromper aquilo que alimenta diretamente a nossa desvalorização: deixar de reorganizar todo o nosso dia por uma pessoa que nunca respeita o nosso tempo, deixar de financiar um prazer à custa das nossas necessidades essenciais ou abrandar um projeto adicional quando o nível atual não é sustentado a dois.

O ajustamento deve ser proporcional, compreensível e ligado ao problema. Protege uma fonte que o hábito tinha apagado. Não mantém a relação refém.

Se a outra pessoa reage apenas quando o conforto desaparece, observemos aquilo que procura recuperar: a nossa pessoa ou apenas aquilo que fornecíamos? A resposta vê-se no que continua depois da crise, não apenas nas promessas proferidas durante o medo.

A luz mostra-se, não se proclama

Podemos repetir que somos raros. Se os nossos atos criarem medo, humilhação ou solidão, nenhum lema muda a realidade.

A luz vê-se na paz que a nossa presença favorece, na estabilidade que os nossos compromissos tornam possível, na liberdade que o nosso amor protege e nas dificuldades que ajudamos a atravessar sem transformar a nossa ajuda numa dívida.

Também se vê na nossa forma de ouvir aquilo que fazemos mal.

Uma pessoa sólida não transforma as suas qualidades em imunidade. Aceita que a sua luz coexista com uma sombra a corrigir.

Sustentar o nosso valor não nos torna frios. Impede-nos de acreditar que o amor deve ser obtido pelo apagamento.

Damos sem nos tornarmos donos da pessoa que recebe. Pedimos sem transformar a repetição em súplica. Corrigimos a nossa parte. Não criamos uma dependência para nos tornarmos indispensáveis. E sabemos que a outra pessoa deve participar na preservação daquilo que recebe.

Se a relação se reequilibrar, a nossa luz torna-se mais livre porque já não serve para comprar um lugar.

Se nada mudar, ajustamos aquilo que damos e retiramos uma conclusão dos atos.

A primeira pessoa que deve deixar de tratar a nossa luz como algo sem valor somos nós.

O nosso amor ilumina a vida da pessoa que está connosco.

O nosso amor-próprio recorda que a fonte também deve ter um lugar na casa.

Para aprofundar

As perguntas que me ensinam a sustentar o meu valor

  1. Que valor concreto cria a minha presença nesta relação?
  2. Que efeitos mostram que a minha luz é real ou está mal orientada?
  3. Estou a contribuir ou a tornar-me indispensável?
  4. Que esforço mantenho mesmo quando alimenta a minha desvalorização?
  5. Que limite sustentaria se deixasse de suplicar pelo meu lugar?

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