Uma decisão constrói-se antes de ser assumida
«É a minha escolha e eu assumo-a.»
Esta frase transmite uma impressão de maturidade. Diz que não queremos fazer outra pessoa carregar as consequências daquilo que decidimos.
Mas assumir uma decisão não a torna automaticamente boa.
Podemos assumir uma escolha impulsiva, uma vingança, uma partida preparada por uma interpretação errada ou um perdão que não trata causa alguma. Podemos sentir orgulho por termos escolhido sozinhos e, ainda assim, descobrir que nunca tínhamos comparado as possibilidades reais.
A responsabilidade não começa, portanto, depois da escolha.
Começa na forma como a construímos.
Uma decisão séria na relação procura compreender o problema, verifica a nossa parte, define o objetivo, compara várias opções e considera as consequências para quem terá de as viver.
Assumir vem depois.
Uma emoção urgente pode criar uma falsa certeza
Depois de uma ferida, uma opção impõe-se rapidamente.
Partir. Calar. Perdoar. Vasculhar. Devolver o mesmo. Revelar tudo à família. Criar uma distância definitiva.
Essa opção traz muitas vezes uma recompensa imediata: parar a humilhação, diminuir a incerteza, retomar o controlo ou fazer a outra pessoa sentir uma parte da nossa dor.
Tratamo-la então como a única decisão possível.
Mas a urgência da emoção não prova que a solução seja única. Mostra sobretudo aquilo que queremos aliviar agora.
Antes de decidirmos, temos de criar espaço suficiente para que o presente não escolha sozinho em nome de todo o nosso futuro.
Compreender o problema vem antes da solução
Por vezes, respondemos ao primeiro sintoma.
A pessoa que está connosco desabafa mais com um colega. Decidimos deixar de contar seja o que for. Gasta sem nos consultar. Separamos bruscamente todas as finanças. Torna-se distante. Procuramos de imediato outra fonte de atenção.
Estas reações podem parecer simétricas. Ainda não dizem por que razão a situação existe.
O que mudou? Desde quando? Que função cumpre o comportamento? Que pedidos foram formulados? Que soluções já foram experimentadas?
Compreender não desculpa a falta. Evita que escolhamos uma resposta que trata apenas aquilo que vemos, deixando intacto o mecanismo que o produz.
A nossa parte deve depois ser verificada, não inventada.
Se a pessoa que está connosco desenvolve uma cumplicidade exterior, podemos analisar se nos tínhamos tornado difíceis de abordar: julgamento, raiva, falta de escuta ou assuntos proibidos. Esta investigação pode revelar uma correção importante.
Não transforma todas as decisões escondidas numa consequência de que seríamos autores. A outra pessoa continua responsável pela forma como respondeu à falta.
A nossa parte é aquilo que realmente preparámos, negligenciámos ou mantivemos. Não deve ser apagada para proteger a nossa inocência nem inventada para nos dar a ilusão de controlarmos todas as causas.
Uma boa decisão precisa de responsabilidades exatas.
Olhemos para os factos como espectadores
Podemos imaginar que a história pertence a um casal que não conhecemos.
O que veríamos? Que factos distinguiríamos do ciúme, do medo e das suposições? Que conselho daríamos sem termos de salvar a nossa imagem?
Este olhar exterior não nos torna perfeitamente objetivos. Cria uma distância útil entre aquilo que sentimos e aquilo que concluímos.
Escrevamos os acontecimentos sem adjetivos: aquilo que foi dito, feito, repetido, pedido e alterado. Acrescentemos depois, em separado, as nossas interpretações.
A decisão ganha clareza quando sabe em que dados assenta.
Todas as opções devem responder a um objetivo
Uma decisão não pode ser avaliada sem sabermos aquilo que procura produzir.
Se nos afastamos, é para recuperarmos o discernimento, protegermos um limite, prepararmos uma partida ou deixarmos a outra pessoa ansiosa?
Se perdoamos, é para reabrirmos uma reparação ou apenas para fazermos desaparecer um ambiente desconfortável?
Se falamos com a família, procuramos competência, refúgio ou aliados?
O mesmo gesto muda de valor consoante o seu objetivo.
Dar nome àquilo que queremos construir impede a raiva de usar uma ação honrosa para perseguir um objetivo destrutivo.
Comparemos conjuntos completos
Comparamos muitas vezes as vantagens da nossa preferência com os inconvenientes da outra opção.
Partir dar-nos-ia paz; ficar deixar-nos-ia com os problemas. Ou ficar preservaria a família; partir criaria solidão.
Esta comparação é enviesada.
Cada opção tem benefícios, custos, riscos e incógnitas. Partir pode trazer alívio e vazio. Ficar pode preservar certos valores e prolongar um sofrimento. Falar pode esclarecer e expor. Calar pode interromper uma escalada e deixar o problema de fundo intacto.
Entre suportar e partir, também podem existir outros caminhos: alterar uma responsabilidade, propor um período experimental, pedir uma opinião competente, separar temporariamente um recurso ou observar se um esforço anunciado se torna real.
Nem todas estas opções são adequadas a todas as situações. A sua existência recorda apenas que uma decisão responsável procura vários caminhos antes de declarar que o seu primeiro reflexo era uma necessidade.
A melhor opção não é aquela que contém apenas vantagens. É aquela cujo conjunto melhor serve o objetivo por um preço que consideramos aceitável.
Perguntemos quem beneficia da escolha e quem paga o seu preço
Uma decisão pode servir a nossa reconstrução, a pessoa que está connosco, o casal, os filhos, a nossa raiva ou o nosso desejo de sermos admirados.
Por vezes, o principal beneficiário revela aquilo que não ousávamos nomear.
Afirmamos proteger a família, mas evitamos sobretudo enfrentar a solidão. Dizemos querer salvar o casal, mas procuramos principalmente impedir a outra pessoa de escolher sem nós. Anunciamos uma consequência para responsabilizar, mas esperamos secretamente humilhar.
Uma escolha pessoal pode legitimamente servir o nosso próprio interesse. Não somos obrigados a sacrificar-nos pelo projeto comum.
Mas uma decisão que envolve o casal deve considerar aquilo que impõe à outra pessoa e à vida partilhada.
A nossa paz interior nem sempre basta. Decidir sozinhos uma despesa comum pode pôr fim à nossa hesitação e criar uma dívida para duas pessoas. Recusar uma mudança de casa pode tranquilizar-nos e aprisionar o projeto profissional da outra pessoa. Perdoar imediatamente pode acalmar a nossa ansiedade e eliminar qualquer exigência de reparação.
A paz da pessoa que decide não prova que a decisão para a relação seja justa. É ainda preciso analisar a distribuição das consequências.
Uma boa construção não promete um resultado perfeito
As consequências continuam em parte incertas.
A reação da outra pessoa, um acidente, uma nova oportunidade ou uma informação desconhecida podem alterar o que se segue. Uma decisão bem construída não é uma profecia.
É a melhor escolha que podemos construir com os factos, os valores e os riscos disponíveis.
Esta incerteza pede-nos que preparemos proteções e continuemos capazes de fazer ajustes. Não nos autoriza a decidir de qualquer maneira sob o pretexto de que ninguém conhece o futuro.
Uma decisão também pode trazer um valor diferente daquele que esperávamos: pôr fim a uma obsessão, revelar um limite, ajudar-nos a desenvolver uma capacidade ou libertar-nos de uma hesitação que se tornou mais dispendiosa do que a experiência.
Isso não justifica todos os erros. Ajuda-nos a olhar para aquilo que a escolha realmente produziu, incluindo o que não estava previsto.
Assumir significa aprender
Depois da escolha, podemos descobrir um ângulo morto.
Assumir não consiste em repetir que não nos arrependemos de nada para salvar a nossa imagem. Consiste em reconhecer o preço, o valor, o possível erro e aquilo que faremos de forma diferente numa decisão futura.
Deixamos de nos queixar como se a escolha nunca se tivesse tornado nossa.
Nem por isso nos proibimos de constatar que foi má, de a corrigir ou de mudar de direção.
Uma pessoa responsável não é aquela que nunca volta atrás na sua decisão.
É aquela que não transforma a fidelidade à sua escolha antiga no dever de continuar a prejudicar-se.
Para aprofundar
A decisão que estou a construir
- Que alívio imediato procuro?
- Que factos separei das minhas interpretações?
- Que objetivo concreto deve servir a minha escolha?
- Como serão distribuídos os benefícios e os custos desta decisão entre as pessoas envolvidas?
- Que outra opção ainda merece ser comparada?
