A gratidão volta a colocar toda a vida em perspetiva
Por vezes, basta que uma parte importante da nossa vida desabe para pronunciarmos uma frase imensa: «Já não tenho nada.»
Não perdemos necessariamente a saúde, os filhos, os amigos, as competências, o trabalho, a casa ou todas as pessoas que nos amam. Mas aquilo que acaba de se quebrar tinha tanto valor que o resto parece ter saído da imagem.
Esta impressão não é ridícula. Uma crise no casal pode atingir o nosso sono, a nossa confiança e a forma como olhamos para o futuro. A dor não fica docilmente arrumada na caixa «casal».
Mas uma dor que se propaga nem por isso se torna a totalidade da vida.
A gratidão começa aqui, não como uma ordem para sorrir, mas como uma exigência de verdade. Não retira a ferida do enquadramento. Alarga-o até que tudo aquilo que ainda existe possa voltar a entrar nele.
Um enquadramento demasiado apertado produz uma verdade incompleta
Uma fotografia pode ser simultaneamente autêntica e enganadora.
Se enquadrarmos apenas uma janela partida, mostramos algo real. Mas não mostramos a casa inteira, as divisões intactas, as pessoas ainda presentes nem a porta por onde pode chegar uma reparação.
A nossa atenção funciona muitas vezes assim durante uma crise. Examina uma frase, um silêncio, uma mentira ou uma partida. Depois, aperta ainda mais o enquadramento. Tudo aquilo que não diz respeito ao problema parece secundário.
Já não dizemos: «Uma parte essencial da minha vida sofre.»
Dizemos: «A minha vida acabou.»
Devolver a uma dor a sua justa dimensão não consiste em diminuí-la. Consiste em impedi-la de falsificar as dimensões de tudo aquilo que a rodeia.
A gratidão não é otimismo obrigatório
Algumas palavras positivas são violentas porque chegam antes da escuta.
«Pensa em tudo aquilo que tens.»
«Há quem esteja pior.»
«É preciso agradecer à vida.»
Estas frases podem significar para a pessoa ferida: «A tua dor incomoda-nos. Arruma-a.»
A gratidão responsável não diz que o problema é pequeno. Não finge que o bem compensa o mal. Não pede que perdoemos, fiquemos ou renunciemos a uma proteção por terem existido belos momentos.
Diz apenas o seguinte: para decidirmos de forma justa sobre a nossa vida, precisamos do processo completo.
Esse processo contém a ferida, as suas consequências e aquilo que já não deve ser tolerado. Também contém as pessoas fiáveis, as capacidades disponíveis, os domínios que ainda funcionam e os caminhos que não dependem inteiramente da pessoa que nos feriu.
A atenção regula a presença interior dos factos
Não provocamos uma traição por pensarmos nela. Mas a atenção regula a frequência com que um facto entra na nossa consciência.
Um acontecimento de alguns minutos pode ser repetido centenas de vezes. Uma frase pronunciada numa noite torna-se o primeiro pensamento da manhã e o último do dia. A repetição não altera o facto inicial. Aumenta o seu tempo de ocupação.
Compreender pode ser necessário. Regressar aos factos pode revelar um mecanismo ou preparar uma decisão. Mas, quando a consulta já não produz conhecimento algum e apenas volta a tornar presente a ferida, já não estamos a analisar.
Deslocar voluntariamente a nossa atenção não nega a realidade. Altera a parte do nosso dia que essa realidade ocupa.
O positivo precisa de ser recordado com precisão
Raramente precisamos de nos organizar para recordar aquilo que nos feriu. A censura regressa sozinha. O fracasso reencontra o caminho.
O positivo torna-se muitas vezes silencioso assim que entra no hábito. Uma capacidade usada todos os dias deixa de nos parecer uma capacidade. Uma presença regular acaba por fazer parte do cenário.
O conhecimento abstrato de que «nem tudo é mau» compete mal com uma dor consultada durante todo o dia.
Por vezes, é preciso voltar a dar aos elementos positivos uma presença concreta, tempo e palavras. Não para que ganhem um julgamento contra o sofrimento, mas para deixarem de ser testemunhas que ninguém chama.
Podemos dedicar algumas horas ao processo positivo: as pessoas que nos ajudaram, as dificuldades que já atravessámos, as competências adquiridas, os laços fiáveis, os lugares seguros e os momentos que realmente importaram.
Algumas pessoas encontrarão muito. Outras farão uma lista curta. Não se trata de vencer um concurso de gratidão. Uma única presença fiável não substitui tudo aquilo que falta, mas não deve ser contada como zero.
As palavras vagas não tornam a vida visível
Dizer «ainda assim, tenho sorte» pode continuar tão abstrato como dizer «tudo está mal».
A gratidão torna-se sólida quando dá nome aos factos.
«Ontem, esta pessoa ouviu-me sem decidir em meu lugar.»
«Ainda tenho a capacidade de trabalhar uma hora neste projeto.»
«O meu filho e eu rimos durante a refeição.»
«Esta relação atravessa uma crise, mas este momento concreto foi bom e existiu realmente.»
A precisão impede-nos de passar de um excesso ao outro. Não substituímos «nada está bem» por «está tudo bem». Podemos dizer: «Isto está mal, isto continua frágil, isto ainda funciona, isto ajuda-me e isto tem de mudar.»
Uma vida assim descrita não é embelezada nem condenada. Volta a tornar-se habitável pelo pensamento.
As soluções antigas são referências, não garantias
Talvez já tenhamos conhecido a solidão, uma perda financeira, uma mudança brusca ou a impressão de já não sabermos continuar. Surgiu uma solução. Por vezes, fomos nós que a construímos. Outras vezes, alguém no-la propôs.
Esta memória ensina-nos que a nossa perceção atual não conhece todas as saídas possíveis.
Não prova que tudo acaba sempre por se resolver. Algumas perdas permanecem. Algumas ajudas não chegam.
Mas esquecer todas as soluções antigas produz uma falsificação inversa. Apresentamo-nos então como uma pessoa que nunca aprendeu, nunca recebeu ajuda e nunca encontrou uma passagem.
A nossa história não garante o resultado. Fornece-nos referências: sabemos pedir, aprender, esperar, recomeçar ou reconhecer uma porta quando se abre.
O presente não reescreve todo o passado
Quando uma relação nos fere, podemos sentir-nos tentados a reescrever toda a sua história.
Se o presente é falso, tudo teria sido falso. Se a pessoa nos abandona, nunca nos teria amado. Se surge uma mentira, nenhuma recordação mereceria já a nossa confiança.
Contudo, um momento pode ter sido bom sem garantir aquilo que se seguiu. Um riso partilhado aconteceu realmente. Um período de apoio pode ter sido sincero.
Reconhecê-lo não iliba a falta presente. Dez anos felizes não compram o direito de humilhar durante o décimo primeiro. Mas a falta presente não pode viajar no tempo para eliminar todo o bem já vivido.
Aqui, a gratidão protege a nossa própria história. Recusa que o comportamento atual de alguém se torne dono das nossas recordações.
Aquilo que vivemos ainda nos pertence: uma competência, uma confiança recuperada, uma cidade descoberta, uma relação com os nossos filhos ou a prova de que soubemos criar beleza. A recordação não substitui a presença. Mas o desaparecimento de uma forma não leva de volta tudo aquilo que depositou em nós.
Também choramos um futuro imaginado
Uma perda contém muitas vezes dois lutos.
O primeiro diz respeito àquilo que realmente vivemos.
O segundo diz respeito àquilo que pensávamos viver: os anos seguintes, as viagens, a velhice em conjunto ou a versão da relação que tínhamos a certeza de estar a construir.
Esse futuro imaginado pode ter alimentado as nossas decisões durante anos. O seu desaparecimento dói realmente. Mas temos de distinguir aquilo que nos foi retirado daquilo que ainda não tinha acontecido.
Podemos dizer: «Choro os anos vividos e choro também os anos esperados.»
Deixamos de dizer: «Roubaram-me toda a vida que eu deveria ter tido», como se um futuro concreto nos tivesse sido garantido.
Um futuro imaginado pode ser substituído por um futuro ainda inimaginável. Temos o direito de fazer o seu luto sem lhe dar a propriedade de todos os nossos dias de amanhã.
Comparar não deve retirar a ninguém o direito de sofrer
A comparação pode despertar-nos para aquilo que já não vemos. Torna-se injusta quando assume a forma de um tribunal: «Alguém sofre mais, por isso não tens o direito de sofrer.»
Se esta regra fosse verdadeira, só uma pessoa no mundo teria o direito de exprimir a sua dor.
Sobretudo, a vida dos outros não deve tornar-se um cenário destinado a fazer-nos apreciar a nossa. Uma pessoa que vive com uma deficiência não é o símbolo da nossa sorte. Uma pessoa pobre não é um instrumento pedagógico.
A comparação saudável pergunta: «O que é que este encontro volta a tornar visível na minha própria vida e como posso respeitá-lo sem diminuir ninguém?»
Se produzir vergonha ou desprezo, afasta-nos da gratidão. Se produzir atenção, humildade e solidariedade, pode reconduzir-nos a ela.
Agradecer sem impor uma explicação
Nem todos damos o mesmo nome àquilo que nos ultrapassa.
Alguns agradecem a Deus. Outros dizem Alá, a Providência, o céu, a vida, a sorte ou as pessoas através das quais o bem lhes chegou. Outros não pensam o mundo através de uma presença espiritual, mas reconhecem que não são os únicos autores de tudo aquilo que os construiu.
A gratidão pode habitar estas linguagens diferentes.
Não obriga a apresentar cada felicidade como uma recompensa nem cada infelicidade como uma lição enviada para nós.
Podemos agradecer sem alegar que compreendemos toda a organização do mundo.
Uma ajuda recebida também não cria um direito de propriedade sobre a nossa vida. Pais que deram muito não podem dirigir todas as nossas decisões de adultos. Uma pessoa que atravessou uma provação connosco não compra o silêncio sobre os seus comportamentos futuros.
A gratidão nunca anula a liberdade. Pergunta-nos aquilo que faremos do valor que agora temos nas mãos.
Aquilo que já não vemos torna-se difícil de proteger
Notamos intensamente aquilo que começa: o primeiro serviço, a primeira refeição preparada, a primeira presença durante um período difícil. Depois, a repetição transforma a dádiva em cenário.
Deixamos de pensar: «Alguém carrega esta responsabilidade todas as manhãs.» Pensamos apenas: «Está feito.»
Aquilo que já não vemos, deixamos de proteger. Já não medimos o cansaço nem o esforço.
A gratidão volta a colocar consciência no hábito. Pode produzir um agradecimento, mas também uma passagem de turno, uma melhor distribuição ou a decisão de deixar de permitir que uma pessoa sustente sozinha aquilo de que ambas beneficiam.
Ver um valor obriga-nos a perguntar como poderá durar sem destruir a pessoa que o torna possível.
Um problema concreto abre uma resposta concreta
Quando dizemos «toda a minha vida é um fracasso», nenhuma ação parece suficiente.
Se dissermos: «Deixei de confiar na pessoa que está comigo desde esta mentira», surgem perguntas concretas. Que provas seriam necessárias? Que atos seriam insuficientes? O que faremos se nada mudar?
Se constatarmos: «Desde esta crise, isolei-me de duas pessoas que me ajudavam», torna-se visível outra ação: retomar o contacto.
A gratidão não resolve a mentira. Impede que a mentira, o sono, o isolamento, as finanças e o nosso futuro se fundam numa única infelicidade sem saída.
Um problema nomeado pode ser observado, rodeado, limitado, trabalhado ou abandonado.
A felicidade pode coexistir com uma questão por resolver
Por vezes, acreditamos que rir antes de encontrarmos a solução seria infiel à nossa dor.
Mas uma alegria momentânea não torna falsa a dor. Revela apenas que somos maiores do que ela.
Podemos rir ao meio-dia e chorar à noite. Apreciar a presença dos nossos filhos sem deixarmos de lamentar aquilo que acontece no casal. Precisar de ajuda e, apesar de tudo, conhecer uma hora tranquila.
Esta verdade nunca deve tornar-se uma ferramenta para manter alguém em perigo. As recordações felizes não tornam a violência menos violenta. Uma ajuda recebida não compra a nossa segurança. Não procuramos o positivo para suportarmos melhor o inaceitável.
Procuramos tudo aquilo que ainda existe para recuperarmos poder, pensarmos com mais clareza e não deixarmos que o medo nos convença de que nenhuma saída é possível.
A gratidão não prova que não temos razão alguma para sofrer.
É a disciplina através da qual deixamos de entregar ao nosso sofrimento o direito de contar sozinho toda a nossa vida.
Para aprofundar
O que deixei fora do enquadramento?
- Que realidade dolorosa ocupa hoje todo o meu enquadramento?
- Que valor presente deixei de ver com precisão?
- Que facto positivo posso nomear sem negar a ferida?
- Que problema global devo reformular como pergunta concreta?
- Que recurso ainda disponível pode apoiar a minha próxima decisão?
