Voltar a convidar a alegria antes de a vontade regressar
Depois de uma ferida, por vezes o riso parece-nos deslocado.
Uma parte da nossa vida deixou de funcionar. Então, quando alguma coisa nos poderia fazer sorrir, um pensamento detém-nos: «Não deveria estar feliz agora.»
A alegria parece uma traição à dor.
Cancelamos uma saída. Deixamos a música desligada. Deixamos de cozinhar aquele prato de que gostamos. Não respondemos aos amigos. Esperamos voltar a ter vontade antes de recomeçarmos a viver.
Mas a vontade nem sempre regressa a uma vida da qual retirámos tudo aquilo que a poderia despertar.
A dor merece tempo, palavras e um espaço onde possa ser observada. Nem por isso deve receber todas as divisões da nossa casa interior.
Podemos sofrer com aquilo que desabou e, ao mesmo tempo, reabrir uma pequena porta para aquilo que continua vivo.
A alegria não nega a ferida
Rir durante um luto não significa que a pessoa perdida importava menos. Passar uma boa noite depois de uma rutura não prova que não amávamos. Encontrar alguns minutos de paz no meio de um conflito não torna esse conflito imaginário.
Duas realidades podem coexistir.
Uma parte de nós sofre. Outra ainda pode receber uma presença, uma música, um sabor, uma luz ou uma conversa.
Por vezes, confundimos a lealdade à nossa história com a lealdade ao nosso sofrimento. Como se o facto de continuarmos tristes demonstrasse a profundidade daquilo que vivemos.
O sofrimento não precisa da nossa infelicidade permanente para ser legítimo.
Podemos dar-lhe o seu lugar sem lhe dar todo o lugar.
Um estado não deve tornar-se a nossa identidade
Uma crise pode provocar lágrimas, uma perda de impulso e uma necessidade de recolhimento.
O perigo começa quando deixamos de dizer: «Estou a atravessar um período triste» e passamos a dizer: «Tornei-me uma pessoa triste.»
Esta definição governa então os convites recusados, as atividades abandonadas e as pequenas alegrias consideradas incompatíveis com aquilo que nos aconteceu.
Podemos dizer: «Isto dói-me» sem concluir: «Já nada me pode fazer bem.» Podemos reconhecer que hoje não temos a força de ontem sem decidir que toda a força nos abandonou para sempre.
A responsabilidade não nos ordena uma alegria imediata. Impede a dor de escrever sozinha a pessoa em que nos tornaremos.
A ação pode anteceder a vontade
Imaginamos muitas vezes a mesma ordem: primeiro a vontade, depois a ação e, por fim, o prazer.
Nos períodos difíceis, esta ordem pode inverter-se.
Realizamos uma ação muito pequena. Ela cria um movimento, um contacto ou uma mudança de ritmo. Torna-se possível uma emoção ligeiramente diferente. Essa emoção torna a ação seguinte um pouco menos difícil.
Não precisamos de correr durante uma hora. Podemos abrir a janela, tomar um duche, caminhar cinco minutos, preparar algo simples ou enviar uma mensagem a uma pessoa segura.
O objetivo não é sentir imediatamente uma grande alegria.
O objetivo é deixar de pedir à vontade que forneça sozinha a energia necessária ao seu próprio regresso.
Progressivamente é uma palavra essencial. Uma pequena ação acessível vale mais do que um programa heroico que acrescenta um novo fracasso à dor.
Obrigarmo-nos não significa violentarmo-nos
Precisamos de uma disciplina benevolente.
Não diz: «Não tens razão alguma para estar triste. Levanta-te e sorri.»
Diz: «Vejo que tens pouca energia. Qual é a menor ação que podes tentar sem te maltratares?»
Num dia, será sair da cama. Noutro, sentarmo-nos alguns minutos ao sol. Por vezes, será aceitar comer aquilo que alguém nos preparou. Noutras ocasiões, dormir, chorar ou reduzir o esforço até que volte a ser possível.
Chorar não é um fracasso. Descansar não é abandonar. A alegria nem sempre é excitação. Pode começar sob a forma de um pouco de paz.
A ação que nos alimenta respeita as forças de que dispomos nesse dia e, ao mesmo tempo, recusa transformá-las num destino definitivo.
Compreender a escuridão não volta a acender a lâmpada
Compreender por que razão uma lâmpada deixou de acender não basta para iluminar a divisão.
Podemos ter identificado a lâmpada avariada ou o fio danificado. Essa compreensão é útil. Mas a luz só regressa quando uma ação altera aquilo que mantém a escuridão.
O mesmo acontece com alguns dias. Podemos ter identificado a falta da pessoa que está connosco e continuar a revivê-la hora após hora.
A explicação responde: «Por que razão estou neste estado?»
A transformação também pergunta: «Que pequena coisa posso voltar a pôr em movimento agora?»
Refletir procura uma compreensão, uma decisão ou uma ação. Ruminar repete os mesmos elementos sem abrir um caminho.
Podemos reservar tempo para escrever, falar ou decidir e depois oferecer outra parte do dia àquilo que nos alimenta. O sofrimento conserva um espaço. Deixa de ocupar toda a casa.
Reabrir uma porta já é um ato de amor-próprio
Darmos amor a nós próprios não é apenas termos uma boa opinião de nós. É organizar aquilo que nos pode fazer bem: proteger um laço, preparar uma refeição, voltar a colocar uma atividade na agenda, limitar aquilo que nos esgota ou pedir a alguém que nos acompanhe.
Depois de nos termos dedicado durante muito tempo à pessoa que está connosco, aos filhos ou às obrigações, podemos ter esquecido como nos dar prazer.
A primeira etapa consiste em voltar a fazer o inventário.
O que nos acalmava? Com quem podíamos ser simples? Que atividade nos dava energia ou um orgulho saudável?
Algumas respostas ainda pertencem à nossa vida. Outras terão de ser adaptadas à pessoa em que nos tornámos.
A pessoa que está connosco pode apoiar este movimento sem se tornar a nossa única fonte. Pode ouvir, preparar uma refeição, propor uma pequena caminhada ou proteger um momento de descanso. Não pode sentir vontade em nosso lugar.
Não reconstruímos sozinhos todas as partes da nossa vida. Também não podemos pedir a uma só pessoa que viva em nosso lugar tudo aquilo que nos poderia ajudar a regressar à vida.
A pequena porta não é a saída inteira
Uma música, uma caminhada ou uma conversa não resolvem a mentira nem a decisão a tomar.
Reabrir uma porta não transforma uma relação destrutiva numa relação saudável. Devolve-nos apenas um pouco de ar, movimento ou clareza.
Esse gesto torna-se útil se nos voltar a ligar ao nosso poder. Torna-se uma fuga se servir para nunca olharmos para aquilo que tem de mudar.
Não precisamos de reparar toda a casa para entreabrir uma porta.
Precisamos de deixar de a condenar nós próprios antes de a vida poder bater-lhe.
Para aprofundar
Que pequena porta posso reabrir?
- Que fonte de alegria deixei de frequentar desde que sofro?
- Que estado passageiro estou a transformar em identidade?
- Que ação acessível poderia anteceder a minha vontade?
- De que descanso ou apoio preciso realmente?
- Que porta posso entreabrir hoje sem negar o problema?
