Fazer a nossa parte sem carregar toda a insatisfação da outra pessoa
Há duas frases atrás das quais nos podemos esconder.
A primeira diz: «Se me amasses verdadeiramente, saberias fazer-me feliz.»
A segunda responde: «A tua felicidade não depende de mim.»
A primeira confia à pessoa com quem estamos uma missão que nenhum ser humano pode cumprir: poupar-nos de toda a tristeza, frustração e desilusão. A segunda pode tornar-se uma forma elegante de deixar de cuidar de tudo. Entre ambas encontra-se a nossa responsabilidade relacional.
Sim, a nossa forma de amar influencia a felicidade da outra pessoa. Uma palavra pode aliviar o seu dia ou torná-lo sombrio. Uma presença pode tranquilizar. Faltas de respeito repetidas podem tornar a vida a dois profundamente infeliz.
Mas não podemos entrar na sua consciência e decidir em seu lugar o que lhe deverá bastar. Podemos preparar uma refeição; não podemos ter fome, saborear e ficar saciados em seu lugar.
A verdadeira pergunta não é, portanto: «Sou responsável pela sua felicidade?»
É mais precisa: «Que parte dessa felicidade posso realmente alimentar e como saber se a assumo?»
Influenciamos uma felicidade que não controlamos
Num casal, os nossos estados interiores não vivem em duas divisões estanques. O tom com que regressamos, a forma como respondemos a uma preocupação, cumprimos uma promessa ou tratamos um erro produzem algo.
Se humilhamos a pessoa com quem estamos e ela sofre, não podemos declarar que o seu sofrimento lhe pertence. Se há meses que não lhe damos atenção, seria desonesto reduzir a sua solidão a um problema pessoal.
No entanto, o efeito que produzimos nunca nos dá controlo total. A outra pessoa pode atravessar um medo, um luto, um cansaço, uma comparação ou uma insatisfação que não provém inteiramente de nós.
Somos responsáveis pela qualidade daquilo que colocamos na relação, não pela totalidade do que depois acontece dentro da outra pessoa.
Esta distinção impede-nos de usar a sua autonomia para nos tornarmos negligentes. Impede-nos também de nos julgarmos culpados por cada nuvem que passa no seu céu.
Um esforço sincero pode falhar o alvo
Por vezes, defendemo-nos com a quantidade: «Com tudo o que faço por ti!»
O cansaço, o dinheiro gasto e os sacrifícios podem ser reais. Mas a quantidade de esforço ainda não responde à pergunta essencial: o que tentámos alimentar na outra pessoa?
Podemos oferecer restaurantes caros a alguém que espera sobretudo ternura. Podemos multiplicar as viagens quando essa pessoa gostaria de se sentir defendida perante a nossa família. Podemos pagar muitas coisas e nunca perguntar como se sente.
O esforço tem um custo, mas não chega ao seu destino.
Um pedido nem sempre dá o nome exato à necessidade. «Quero que saiamos mais» pode significar: «Preciso de sentir que ainda me escolhes.» «Quero sair desta casa» pode significar: «Já não suporto nunca me sentir em casa.»
Compreender exige uma conversa, não um palpite brilhante. Podemos perguntar: «O que te faz sofrer mais?» ou «Que mudança te mostraria que compreendi?»
Dar aquilo que gostamos de dar é generoso. Aprender a dar aquilo que a outra pessoa consegue realmente receber é relacional.
Nem todas as insatisfações pedem a mesma resposta
Há, antes de mais, a falta legítima: um compromisso importante não é respeitado. A outra pessoa pede escuta, respeito, solidariedade ou ternura, e nós evitamos o assunto. A sua queixa informa-nos então sobre a nossa parte.
Há depois a necessidade recorrente. O respeito, a escuta e a presença não são medalhas conquistadas no início da relação. Renovam-se. Voltar a precisar de atenção não nega o valor daquela que foi recebida ontem.
Por fim, existe uma insatisfação que desloca constantemente a linha de chegada. Assim que algo é obtido, deixa de contar. É preciso outra coisa e depois outra. Aquilo que deveria trazer felicidade torna-se um pormenor logo que é recebido.
Se confundirmos estas situações, tornamo-nos injustos. Podemos chamar «capricho» a uma necessidade há muito negligenciada. Ou chamar «dever amoroso» a uma busca que nos esgota sem nunca construir uma satisfação duradoura.
Antes de fazermos mais, perguntemo-nos se o esforço anterior falhou porque estava mal direcionado, porque precisava de ser renovado ou porque nenhuma quantidade parece poder bastar.
O desejo do momento ainda não é o melhor interesse do casal
Um desejo pode indicar uma dor real e propor uma má solução. Quando algo nos faz muita falta, quem nos pede que esperemos parece, por vezes, negar o nosso sofrimento.
Mas a dor não torna automaticamente boa a nossa solução.
É preciso distinguir aquilo que desejamos, o que nos aliviaria agora e o que protege duradouramente ambas as pessoas. Quando estes três elementos se separam, o casal deve comparar as consequências, em vez de fazer vencer a voz mais impaciente.
O longo prazo também não deve tornar-se uma fórmula mágica. Pedir anos de sofrimento em nome de um futuro sem calendário, provas nem etapas não constitui um projeto. Uma visão duradoura tem de conseguir traduzir-se na realidade.
Sair de casa da sogra ou acabar a casa?
Penso num casal que atravessava um período financeiro difícil. O homem e a mulher viviam provisoriamente em casa da mãe dele. A coabitação pesava sobre ela, que queria arrendar uma casa e recuperar a intimidade do casal.
O seu pedido não tinha nada de ridículo. Viver em casa dos pais da outra pessoa pode retirar a sensação de estarmos em casa. As fronteiras tornam-se pouco claras e quem é «o filho da casa» nem sempre mede aquilo que vive quem chega a uma família que não é a sua.
O marido, porém, tinha comprado um terreno e lançado os alicerces da futura casa. Para ele, uma renda atrasaria as obras. Alguns meses de espera talvez permitissem tornar habitável uma primeira divisão e depois prosseguir a construção.
Ela ouvia: «Tens de ficar em casa da minha mãe.»
Ele queria dizer: «Estou a tentar tirar-nos desta situação de forma duradoura.»
Ambos podiam ter uma parte de verdade e uma parte de cegueira. Ela podia subestimar o custo financeiro do alívio imediato. Ele podia subestimar o custo humano da espera, porque vivia com a sua própria família.
Era preciso tornar visíveis os dois custos: preço real de uma renda, atraso das obras, orçamento do espaço provisório, data credível e etapas verificáveis. Era também preciso olhar para o que não cabe num orçamento: falta de intimidade, cansaço, intromissões, eventuais humilhações e o estado real do casal.
Podiam então comparar várias opções: ficar durante um período definido com limites claros, arrendar uma casa modesta, acelerar a criação de um espaço habitável ou procurar outro alojamento provisório.
O marido não podia, sozinho, chamar «interesse do casal» à sua escolha. A mulher não podia tratar toda a espera como prova de que ele não a amava. Uma decisão comum nasce quando cada um aceita incluir no cálculo o custo suportado pelo outro.
Uma boa intenção deve fornecer provas
Se pedirmos à pessoa com quem estamos que suporte um desconforto presente em nome de um benefício futuro, o nosso projeto deve oferecer mais do que uma promessa. Um orçamento, um calendário, etapas e uma solução em caso de atraso transformam uma visão pessoal num projeto que pode ser examinado.
Inversamente, quem pede um alívio imediato deve olhar para o custo total da sua solução. Não para negar a sua necessidade, mas para que ela deixe de ser o único elemento da escolha.
Sermos ouvidos não garante que a nossa proposta será escolhida. Significa que aquilo que protege e aquilo que custa participaram realmente na decisão.
A mesma exigência vale noutros domínios. Alguém pode oferecer muito conforto enquanto falta ternura à pessoa com quem está. Compreender essa falta nunca justifica uma traição. Quem trai continua responsável pela sua escolha. Mas a pessoa fiel pode rejeitar essa falta e, ao mesmo tempo, examinar se a sua forma de amar negligenciava uma necessidade claramente expressa.
Separar as faltas permite aprender sem as misturar.
A pessoa que recebe também tem um papel a desempenhar
Receber é uma prática relacional.
Não consiste em aplaudir tudo o que a outra pessoa faz nem em esconder as próprias necessidades para mostrar gratidão. Consiste em nomear aquilo que importa, reconhecer o que foi dado e explicar o que falta sem apagar o resto.
A pessoa com quem estamos tem uma vida. Pode ter de trabalhar, descansar, cuidar de um filho, atravessar uma dificuldade ou simplesmente não ter hoje a capacidade que teve ontem. O amor não a transforma num serviço permanente.
Quem recebe deve também tornar as suas expectativas compreensíveis. Não podemos calar uma censura durante meses, fingir que tudo está bem e depois apresentar o fracasso da outra pessoa como prova de que não nos ama.
A gratidão não proíbe o pedido. Apenas impede que a carência atual falsifique toda a história.
O silêncio da pessoa com quem estamos também não é prova absoluta de que tudo está bem. Pode traduzir apaziguamento, mas também medo, resignação ou esgotamento. Verifiquemos os factos: as feridas repetem-se? Os nossos comportamentos mudaram? A outra pessoa sente-se livre para falar?
Dizer não pode cumprir o nosso compromisso
Fazer a nossa parte não significa dizer sim a tudo.
Uma despesa pode colocar o lar em perigo. Uma expectativa pode exigir que encubramos uma mentira, abandonemos toda a autonomia ou atentemos contra a nossa dignidade. Ceder talvez adiasse o conflito, mas não protegeria o casal.
Um «não» responsável explica aquilo que protege. Reconhece o desejo que não será satisfeito, procura outra resposta quando possível e aceita não ser imediatamente aplaudido.
Nem todas as recusas são saudáveis. A palavra «não» pode esconder a nossa preguiça, o nosso medo ou a nossa vontade de controlar. Merece o nome de limite quando assenta em factos, protege uma pessoa ou o casal de um dano real e aceita a discussão.
Fizemos a nossa parte quando compreendemos a necessidade, olhámos para os nossos atos e os seus efeitos, corrigimos o que precisava de ser corrigido, comparámos o custo das soluções e propusemos o que continuava a ser possível. Depois, devemos devolver à outra pessoa a sua parte: falar com honestidade, valorizar, escolher e cuidar da própria vida interior.
Pode então acontecer que a pessoa com quem estamos continue insatisfeita, porque nem tudo é possível, não agora ou não desta forma. Podemos deixar de nos punir sem nos tornarmos indiferentes.
Fazer a nossa parte e recuperar a nossa paz significa descansar com uma consciência que se examinou, agiu e agora conhece o limite do seu poder.
Para aprofundar
Onde termina a minha parte?
- Que necessidade concreta se esconde por detrás do pedido da pessoa com quem estou?
- O meu esforço está mal direcionado, precisa de ser renovado ou tornou-se ilimitado?
- O custo de cada pessoa aparece na nossa decisão?
- A minha recusa protege um limite necessário ou evita um esforço realista?
- Que responsabilidade devo devolver agora à outra pessoa?
