Amamos uma pessoa, mas também a vida que ela desperta em nós
Quando dizemos «amo-te», temos a impressão de pronunciar uma frase perfeitamente clara.
Amamos uma pessoa: o seu rosto, a sua voz, a sua história, as suas qualidades, as suas fragilidades e a sua forma particular de olhar para nós.
Mas o nosso amor contém outra realidade.
Também amamos a pessoa em que nos tornamos na sua presença. Amamos a calma que o seu regresso provoca, o orgulho de caminhar ao seu lado, a liberdade de uma conversa, a sensação de sermos escolhidos, compreendidos, desejados ou esperados. Amamos as recordações que esta relação torna possíveis.
Esta nuance não reduz a pessoa que está connosco à sua utilidade. Torna o amor mais legível.
Nunca encontramos a outra pessoa como uma ideia abstrata. Encontramo-la através daquilo que a sua presença faz viver em nós e daquilo que a nossa presença faz viver nela.
Se confundirmos a pessoa com todas as sensações que ela desencadeia, podemos acreditar que a sua ausência fecha todos os acessos a essas sensações. Se distinguirmos a fonte, o caminho e a experiência, a pessoa amada pode continuar única sem se tornar a única porta por onde toda a vida tem de entrar.
Uma pessoa não é o serviço que nos presta
Dizer que amamos aquilo que a outra pessoa faz nascer em nós não significa que amemos apenas os seus serviços. Uma pessoa não é uma máquina encarregada de produzir prazer, segurança, atenção ou prestígio.
Podemos continuar a amar uma pessoa cansada, menos disponível ou temporariamente incapaz de produzir as emoções habituais. Podemos até amar uma pessoa com quem já não conseguimos construir um casal feliz.
Mas negar a experiência produzida seria igualmente falso.
Não escolhemos ao acaso uma pessoa para estar connosco, declarando que a forma como nos trata não tem importância. O amor não é a adoração de uma pessoa desligada de todos os efeitos nem o consumo daquilo que ela fornece. É o encontro entre alguém que possui o seu próprio valor e uma experiência de relação pela qual as duas pessoas se tornam responsáveis.
O amor dado e o amor recebido não contam a mesma história
Quando damos amor, conhecemos a nossa intenção. Sabemos o esforço, o custo do gesto e o significado que lhe atribuímos. Esse conhecimento leva-nos facilmente a concluir que a outra pessoa recebeu amor.
Contudo, essa pessoa não recebe diretamente a nossa intenção. Recebe uma palavra, um objeto, uma presença, uma ausência, um tom ou uma decisão. Depois, interpreta esse facto a partir do seu estado e da história do casal.
Um presente oferecido depois de uma longa negligência pode ser sincero para quem o dá e parecer uma manobra de diversão para quem o recebe. Um silêncio pensado para apaziguar pode ser vivido como abandono. Pelo contrário, um gesto simples pode produzir muito mais amor do que imaginávamos.
A interpretação da outra pessoa não é automaticamente justa. Mas existe. Se queremos amar com eficácia, temos de a compreender, em vez de usarmos a nossa intenção como prova suficiente.
Entre o gesto e a emoção existe um caminho
As flores não produzem diretamente alegria. Uma viagem nem sempre produz felicidade. Um anel não garante a sensação de termos sido escolhidos.
O gesto atravessa primeiro a nossa história. Encontra o nosso estado de espírito, a confiança disponível, o momento escolhido e o sentido que lhe atribuímos.
A mesma frase, «estou aqui», não tem o mesmo valor quando vem de uma pessoa que cumpre a sua palavra ou de uma pessoa que desaparece assim que a dificuldade regressa. O mesmo contacto pode tranquilizar depois de um dia pacífico e irritar no meio de uma ferida não reconhecida.
Por vezes, acusamos a pessoa que está connosco de ter mudado, quando foi o contexto ou a necessidade que mudou. Noutras ocasiões, multiplicamos os objetos porque nos recusamos a olhar para aquilo que os impede de chegar ao destino.
O anel não tinha mudado; a sua história, sim
Uma mulher contou-me que tinha sido feliz durante vários dias por causa de um anel que já possuía.
Depois de um período difícil, o companheiro tinha-lhe retirado o anel. Mais tarde, retomou os compromissos de ambos, reformulou as suas promessas e voltou a colocar-lhe o anel no dedo.
Ela confidenciou-me que sentiu uma alegria talvez mais forte do que no dia do casamento.
O metal não tinha mudado. A mão também não. Aquilo que tinha mudado era o processo.
Da primeira vez, o anel anunciava uma promessa ainda pouco testada. Da segunda, chegava depois de uma fragilização e de uma decisão visível de escolher de novo.
Este caso ensina-nos a olhar para além do objeto pedido. Por vezes, reclamamos um gesto quando precisamos sobretudo da prova de uma prioridade. Pedimos tempo quando procuramos sentir que fomos escolhidos. Pedimos desculpas quando precisamos de ver compreensão e uma nova direção.
Se não distinguirmos o objeto do processo, podemos obter aquilo que pedimos e continuar vazios.
O cenário não é a emoção procurada
Uma mulher que conheço tinha dificuldade em apreciar um momento quando as coisas não decorriam como as tinha preparado na cabeça.
Se a saída mudava ou a outra pessoa não usava as palavras esperadas, já não conseguia desfrutar. O seu cenário tinha-se tornado a condição de acesso à emoção.
A espontaneidade não significa aceitar tudo nem renunciar às nossas preferências. Significa continuarmos disponíveis para um valor que não assumiu a forma prevista.
Podemos desejar uma grande noite e receber uma conversa inesperada que nos aproxima mais. Sonhar com uma viagem e descobrir que um dia simples nos devolve uma sensação de liberdade. Esperar uma declaração espetacular e ser tocados por um esforço discreto.
Quando sabemos aquilo que o cenário devia produzir, deixamos de tratar a sua reprodução exata como a única definição de felicidade.
A pessoa, a fonte e a função não são a mesma coisa
A pessoa que está connosco é uma pessoa.
Também pode ser fonte de várias experiências: riso, estima, desejo, serenidade, pertença, segurança ou descoberta.
A função descreve aquilo que esta fonte torna possível em nós. Uma conversa pode cumprir uma função de expressão. Um olhar pode alimentar a sensação de sermos desejados. Um projeto comum pode dar uma direção.
A pessoa não é substituível como um objeto. Tem uma história e um lugar singular. Mas algumas funções emocionais não lhe pertencem em exclusivo.
Podemos rir com um amigo sem substituir a pessoa que está connosco. Sentir orgulho num projeto pessoal sem retirar valor à sua admiração. Encontrar serenidade num lugar sem fingir que esse lugar reproduz a intimidade do casal.
Uma fonte equivalente responde a uma parte da necessidade sem recriar toda a experiência. Aquilo que é único não precisa de ser a única fonte de tudo.
Tornarmo-nos uma fonte para nós não significa bastarmo-nos
Não podemos dar tudo a nós próprios. Algumas experiências nascem do encontro e não podem ser reproduzidas a sós da mesma forma.
Tornarmo-nos uma fonte para nós significa aprendermos a dar-nos atenção, reconhecer uma qualidade, organizar uma experiência que nos alimenta e não esperar sistematicamente que outra pessoa nos dê autorização para viver.
Este caminho não substitui todo o amor recebido. Mantém aberta uma via interior.
Podemos então pedir que nos amem sem apresentar cada falta como prova de que já nada valemos. Podemos sofrer com uma distância sem lhe confiar o poder de fechar todos os nossos outros acessos à alegria.
As outras fontes não desculpam o casal
Diversificar as nossas fontes pode ser usado como fuga.
Uma pessoa negligencia a companheira e depois explica-lhe que deveria aprender a ser feliz sozinha. Um homem recusa qualquer conversa com a companheira e depois recorda-lhe que ela tem amigos.
Este raciocínio desloca injustamente a responsabilidade.
Uma conversa com um amigo pode diminuir a solidão. Não substitui o diálogo que o casal recusa continuamente. Um projeto pessoal pode dar orgulho. Não apaga a humilhação repetida em casa.
As outras fontes protegem a nossa capacidade de viver, refletir e escolher. Não falsificam o balanço do casal.
Temos de sustentar as duas verdades: ninguém deveria carregar sozinho toda a nossa felicidade e ninguém deveria usar esse limite para abandonar o seu contributo para a felicidade da relação.
Dar também pode tornar-se uma fonte
Algumas experiências de felicidade surgem quando damos. Ajudar, transmitir, criar, encorajar ou fazer rir pode produzir uma sensação de utilidade e coerência.
Esta reciprocidade interior não torna falso o gesto. O interesse torna-se preocupante quando a outra pessoa nada ganha, serve apenas de instrumento ou tem de pagar um preço que nunca aceitou.
No casal, a nossa felicidade não vem, portanto, apenas daquilo que a pessoa que está connosco faz por nós. Também pode vir da nossa capacidade de amar com inteligência e construir uma relação da qual nos podemos orgulhar.
Uma fonte importante pode enfraquecer sem tornar falsas as outras
A pessoa que está connosco pode ser a fonte mais intensa de uma determinada felicidade. Reconhecer outras fontes não exige que diminuamos essa perda nem que finjamos que tudo se equivale.
Nem todas as alegrias têm o mesmo sabor. Uma noite com alguém próximo não reproduz necessariamente a paz de um lar amado. Um êxito não substitui uma intimidade.
Mas diferente não significa falso.
Podemos receber uma pequena alegria sem a acusar de não ser a grande. Podemos deixar uma fonte secundária apoiar-nos sem lhe pedir que substitua a principal.
Esta capacidade não trai o nosso amor. Recusa tornar o nosso sofrimento dono de todas as emoções ainda disponíveis.
Mapear as funções torna o amor mais preciso
Uma lista de fontes torna-se mais útil quando acrescentamos a função de cada uma.
Esta pessoa permite-me rir sem me vigiar. Esta atividade devolve-me a sensação de aprender. Este lugar ajuda-me a abrandar. Este projeto alimenta o meu orgulho. Este gesto para com a pessoa que está comigo recorda-me que ainda sei oferecer valor.
Descobrimos então as funções concentradas numa única fonte e aquelas que abandonámos. Também vemos aquilo que a pessoa que está connosco realmente oferece, com uma precisão que pode renovar a nossa gratidão.
O objetivo não é organizar uma vida em que nunca ninguém faria falta. É compreender aquilo que falta quando uma fonte enfraquece e não confundir a ausência de um caminho com o desaparecimento de todos os destinos.
Uma pessoa amada não é diminuída quando deixa de ficar encarregada de tudo. Volta a tornar-se visível naquilo que realmente oferece.
A pessoa que está connosco continua a ser única. A felicidade conserva várias portas.
Para aprofundar
O que é que esta relação faz viver em mim?
- Que experiências concretas desperta em mim a presença da pessoa que está comigo?
- Que cenário confundi com a emoção que procurava?
- Que função concentrei numa única pessoa?
- Que outra fonte pode apoiar esta função sem substituir o casal?
- O que é que a minha presença faz viver hoje na outra pessoa?
